ESTRATÉGIA DE IMPLANTAÇÃO

Em parceria com a Aliança da Terra, Amaggi 4, CAT Sorriso e TNC, o SFTF na região da Amazônia Legal atuou em três frentes principais: conscientização e capacitação, diagnóstico participativo (para adequação das fazendas) e certificação RTRS.

1. Abordagem:

 

Um dos principais aprendizados foi, sem dúvida, a estratégia de abordagem do produtor. Ela nunca deve ser impositiva, por meio de confronto ou críticas negativas. Para Cynthia Cominesi, engenheira agrônoma, diretora de sustentabilidade do CAT Sorriso, o conhecimento e a forma de atuação do produtor são passados de geração para geração. Com erros e acertos, tudo o que o produtor sabe (e não sabe) é cultural. Dessa forma, a estratégia encontrada foi de aproximação amigável e positiva. 


Em Sorriso, por exemplo, a abordagem se deu pelo programa “Mulheres no Campo” - grupo de mulheres que atuam com práticas sustentáveis nas lavouras. “Essas mulheres não focam na organização que está propondo o projeto, mas no seu conteúdo. Podemos dizer que elas têm mais confiança nos benefícios indiretos que o programa pode trazer para a região. Para elas, a grande motivação é a visão de que a fazenda é uma herança. Elas querem deixar para os filhos propriedades modelos. Dessa forma, engajamos as produtoras, implantamos o programa de forma piloto e conseguimos mostrar para outros produtores os resultados obtidos”, conta Cynthia. 


Já para Rafael Pereira, analista ambiental da Amaggi, é fundamental que se estabeleça uma relação de confiança entre o parceiro implantador do padrão de produção sustentável e os produtores. “Na Amazônia Legal  temos um quarto projeto (os outros três são no cluster Áreas Consolidadas e foram iniciados antes deste), e partimos de uma abordagem diferente porque percebemos que as dificuldades que tivemos era de conversar com o produtor e ele não saber do que se tratava esse padrão e explicar porque deveria fazer isso, quais os benefícios. É uma quebra de paradigma. Acho que isso só é possível com uma relação de confiança. Aprendemos ao longo dos anos que as regras têm que ser bem claras. A conversa com os produtores tem que ser franca, mas mostrando os benefícios”, aponta. 

2. Conscientização + capacitação:

 

Devido ao grande foco no desmatamento, existe um grande tabu em torno do conceito de sustentabilidade. Assim, o programa primeiramente sensibilizou os produtores sobre o tema, atrelando a sustentabilidade a boas práticas: da gestão da propriedade às questões trabalhistas; das leis ambientais à produtividade. 


Para Rafael, outro ponto importante é a proximidade e a frequência dessa relação com o produtor. “Uma chave de sucesso é a periodicidade dentro da fazenda. Como técnico, sempre é possível estar assessorando o produtor, seja na parte ambiental, trabalhista. Então, quanto mais próximo conseguir estar das fazendas, melhor para o resultado do projeto”, afirma. 

3. Certificação:

 

A certificação RTRS e seus critérios serviram como ferramenta para a implantação de boas práticas. Apesar de a maioria dos produtores não saber no que consistia a certificação, os benefícios indiretos, como a melhoria gestão da propriedade e o consequente aumento da produtividade, incentivaram às adequações nas fazendas como um todo e não só na lavoura de soja.


O projeto com a TNC, que pré-certificou três propriedades, também considerou  muito positivo o processo como um todo.


Nós trabalhamos com foco na adequação ambiental (com base no novo código florestal). Tudo com o que trabalhamos e propomos aos produtores são obrigações legais, que eles devem cumprir. Quando falamos na certificação RTRS, o cenário é diferente. Estar no SFTF e inserir a cultura da certificação em nossas áreas de atuação tem resultado para nós em muito aprendizado e experiência. Além de todos os benefícios que traz para o produtor e sua propriedade (gestão, adequação, eficiência de produção, oportunidades de negócio, certificação e bônus), para a TNC um dos grandes ganhos tem sido ainda a relação mais direta e próxima com o produtor”, diz Gina Timóteo, da TNC.


No que diz respeito à certificação da soja, o CAT Sorriso caminha para uma segunda etapa, após certificar nove fazendas e vender os créditos da soja certificada. Novos grupos de produtores estão sendo formados e os grupos pilotos já se encontram no segundo ano de certificação. 
A visão dos produtores mudou. Nós conseguimos vender os créditos e repassar o valor a eles, que por sua vez continuam investindo em melhorias da propriedade. Hoje todos os participantes relatam o quão importante foi o projeto, sobretudo no que se refere à capacitação em gestão. O projeto mudou a forma de pensar. Podemos dizer que o trabalho de conscientização e conhecimento transformou a vida dessas pessoas”, finaliza Cynthia. 


Para a gerente de projetos da Aliança da Terra (ADT), Lilian Scheepers, a certificação traz benefícios que vão muito além do prêmio pago por tonelada certificada. “O impacto do projeto vai além porque quando um indivíduo adquire conhecimento e vê os pequenos frutos que aquela iniciativa promoveu, que já catalisou, então, já não é a mesma coisa. Há uma mudança e os produtores vão ganhar de alguma forma. Tratam-se de ganhos indiretos da certificação, como a eletricidade que vai ser poupada, o melhor manuseio dos agrotóxicos, ou seja, ele vai ter os seus ganhos, resultantes da melhor gestão da propriedade, ao longo do tempo”, sinaliza.

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