ESTRATÉGIA DE IMPLANTAÇÃO

Baseada na pequena propriedade e na mão-de-obra familiar, a agricultura familiar é responsável por 80% da produção mundial de alimentos, segundo dados do relatório “Estado da Alimentação e da Agricultura” (FAO, 2014). No Brasil, de acordo com o Ministério de Desenvolvimento Agrário, 80% da ocupação de trabalho no setor rural e 70% dos alimentos que entram no prato brasileiro vêm da agricultura familiar. 


82% das propriedades agrícolas são de pequenos produtores 31,2% da produção de soja é de agricultura familiar.


Para entender as demandas e especificidades de cada produtor, a Solidaridad buscou parceiros locais para a implantação do programa. De acordo com a Biorgânica e a Gebana Brasil, a certificação RTRS não foi a principal motivação para adesão dos produtores. As propriedades não estavam preparadas para a certificação. A estratégia de abordagem se deu pela capacitação oferecida e o acesso a tecnologias, a equipamentos e ao conhecimento. 


O trabalho em lavouras sob manejo sustentável em propriedades familiares (agricultura familiar) é proporcional ao seu valor agregado.  Ou seja, mesmo com os incentivos legais, ambientais e bônus de certificações, os produtores locais geralmente têm dificuldades de acesso à informação, a ferramentas de gestão e ao conhecimento de técnicas específicas para o manejo da lavoura, controle de pragas e doenças, entre outros processos.


Neste contexto, o programa SFTF buscou interferir positivamente no sudoeste e no oeste do Paraná - regiões que têm entre as suas características ser a de maior concentração de lavouras de soja orgânica. 


Segundo Paulo Martinkoski, consultor e produtor da Biorgânica, é no campo que, com certeza, estão os maiores desafios, especialmente no que diz respeito à evolução tecnológica, ao acesso a equipamentos e à oferta e capacitação de mão-de-obra. “A dificuldade não é de hoje. Percebemos que, desde os primeiros produtores, os desafios são os mesmos: falta de acesso a máquinas de limpa e a novos produtos e culturas; e pouco conhecimento de tecnologias específicas para a lavoura orgânica. Aliada a esses fatores está a crescente dificuldade com mão-de-obra. Hoje em dia as famílias estão menores, os filhos estão indo morar nas cidades e, por se tratar de propriedades baseadas na agricultura familiar, a contratação de pessoal é inviável”, afirma.

1. Mão-de-obra:

 

Com o passar dos anos, as lavouras se encontram cada vez mais esvaziadas. O envelhecimento da população rural, aliada à migração dos mais jovens para a cidade, leva os produtores familiares a arrendar suas terras e parar de produzir. 


Cuido da propriedade sozinho. Anteriormente os meus dois filhos me ajudavam, mas eles casaram e estão morando na cidade”, conta Paulo Ferreira, do município de Salto do Lontra. 


Como estratégia, a Gebana Brasil envolveu as mulheres e os jovens no processo de capacitação - ensinando e dando acesso a tecnologias.

Além de garantir a disseminação das novas ferramentas, o parceiro buscou assegurar que os jovens se sentissem valorizados e com vontade de permanecer na propriedade. 

2. Burocracia:

 

Muitos produtores alegam que o processo de regulamentação e certificação é demasiado burocrático. Devido à cultura paternalista em áreas rurais, o agricultor se mostra resistente a mudanças estruturais na gestão e, consequentemente, não se profissionaliza, mantendo-se à margem de aumentar a produtividade. 


Nesse contexto, a capacitação em gestão, aliada à assistência técnica personalizada mostrou-se de grande importância. Primeiramente, o parceiro realizou treinamentos para sua equipe técnica, a fim de melhorar a compreensão dos princípios e critérios da RTRS. A partir disso, os técnicos passaram para a fase de sensibilização:  abordaram os produtores, promovendo capacitações para gestão financeira, social e ambiental das propriedades (pautada na sustentabilidade). Como forma de convencimento, demonstraram como a adoção de melhores práticas de gestão e melhorias na propriedade resultam em maior produtividade e redução de custos. 


3. Dificuldade técnica para a produção orgânica:

 

O mais difícil é competir com os transgênicos e grandes propriedades. Nossa fazenda é pequena, não usamos agroquímicos e temos pouco acesso a equipamentos e técnicas para fazer a limpa e combater as plantas daninhas e pragas”, conta Agostinho Luiz Warta, de Realeza.


Como parte essencial do programa, os parceiros locais investiram em pesquisa e acesso ao conhecimento. Para isso, foram cultivados dois campos experimentais, onde os produtores podem ver na prática quais são as melhores e mais produtivas variedades para plantar em suas propriedades. Além de ter acesso à assistência técnica personalizada e a equipamentos mecanizados para ervas daninhas. 


Os campos atuam como ensaios ao desenvolvimento de manejo orgânico. Realizamos diversos estudos para entender qual a melhor solução para o combate às pragas e às plantas daninhas; fizemos análises do solo, para entender qual a melhor prática de adubação; divulgamos e compartilhamos os materiais técnicos com os produtores. Dessa forma, conseguimos implantar novas tecnologias e garantimos que o produtor se mantenha na agricultura orgânica e aumente sua produção”, explica Alijan Alban, engenheiro agrônomo da Gebana Brasil. 


Tiago Lima, engenheiro agrônomo da Biorgânica finaliza: “Com o SFTF, os agricultores estão conseguindo buscar novas variedades de soja, com acesso a equipamentos e assistência técnica. Conseguimos ampliar nossa atuação: fornecemos sementes, orientação, comercialização dos produtos orgânicos (segundo necessidade do produtor); emprestamos equipamentos como a rotativa (maquinário para a limpa das terras) e criamos uma proximidade mais fina com os agricultores”.

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