ESTRATÉGIA DE IMPLANTAÇÃO

“A maioria dos produtores que vieram para cá só sabiam plantar. Não entendiam nada de gestão, legislação, sustentabilidade”.

Irene Pellenz, da fazenda Monday (rio que corre, em guarani) - localizada no município de Luiz Eduardo Magalhães, no oeste baiano -, resume na frase acima o perfil do agricultor da região de Matopiba. Com exceção das produções empresariais, mais estruturadas, no que se refere à gestão, a maioria das propriedades familiares aposta em consultorias externas para mantê-las regulamentadas e de acordo com as legislações trabalhista e ambiental brasileiras.

Os produtores que chegaram na região nos anos 1980 estavam interessados em plantar, colher e abrir novas áreas. Essa era a única mentalidade. Com pouca tecnologia, eles tiveram um grande desafio: a acidez e o empobrecimento do solo. Já nos anos 2000, eles receberam tecnologias de ponta provenientes do sul do País. Então, costumamos dizer que o que acontece em Matopiba é um processo. Os produtores tiveram que vencer as dificuldades tecnológicas e do solo, para em 2010, poder incorporar o conceito e prática da sustentabilidade”, explica a superintendente da FAPCEN, Gisela Introvini.

Segundo a coordenadora local do programa pelo SRLEM, Marizete Zuttion, a falta de orientação se reflete na falta de autonomia do produtor. “Ninguém ensina os produtores. Existe uma lei, existe quem fiscaliza, mas não existe quem ensine. A beleza do SFTF foi essa: operou num lugar que os agricultores estão desassistidos. No que se refere ao manejo sustentável de soja, os produtores já mantinham algumas práticas, mas não entendiam seu valor (simbólico e financeiro). Quem passou pelo programa nunca mais vai ser o mesmo, porque tivemos um trabalho de quebra de paradigma”, conta.

Mas a conscientização para o manejo sustentável de soja e a mudança cultural apontada por diversos produtores não aconteceu da noite para o dia: o processo se deu ao longo de quatro anos.

Para suprimir a desconfiança e gerar credibilidade, a Solidaridad buscou parceiros locais para a implantação do programa. Logo de início, ao visitar as fazendas, verificou-se que a certificação RTRS não seria a principal motivação - nem o primeiro passo - para adesão dos produtores.

As propriedades não estavam preparadas para a certificação. A estratégia de abordagem se deu pela capacitação oferecida e pela questão legal. 

Havia uma desconfiança e resistência inicial. Iríamos mexer em situações que estavam ali acomodadas há anos. Iniciamos então um processo de conscientização baseado na confiança. Aos poucos, fizemos o produtor entender que não estávamos ali para fiscalizar, mas para auxiliá-lo. E como forma de convencimento e adesão, nos respaldamos no cumprimento da legislação, afinal, se o produtor adequa a sua fazenda, ela estará em dia com as questões ambientais, de segurança do trabalho e de recursos humanos, ficando menos suscetível a embargos e multas”, aponta Marizete.


Somente após a formação, visitas técnicas e adequação, os produtores começaram a vislumbrar o ganho financeiro com a certificação. “O manejo sustentável de soja nos mostrou que é possível agregar valor ao produto e melhorar o sistema de gestão da propriedade. Com isso, hoje conseguimos enxergar 
o retorno financeiro - seja pelo lucro gerado pela contenção de desperdício, seja pelo bônus futuro gerado pela venda do produto certificado
”, analisa Silvio Mikoczak, administrador da Fazenda Guarani. 


Maria Natalia Soares da Cruz, engenheira de segurança do Condomínio Irmãos Gatos, completa: “Como técnica em segurança do trabalho, eu só enxergo sentido na produção sendo realizada com sustentabilidade social, ambiental e econômica. O SFTF veio para somar: estipulou prioridades e metas práticas, encurtando o prazo para seguir os padrões e a legislação. Hoje consigo ver mudança de cultura, tanto nos gestores quanto nos funcionários. Existe um despertar sobre como devemos agir e produzir.” 


A certificação RTRS, bem como as adequações propostas pelo SFTF trazem uma visão de futuro, possibilitando a produção e a expansão do negócio de forma sustentável. Ao contrário do que as pessoas pensam, a prática da sustentabilidade deve ser feita hoje e seus benefícios também são no presente”, finaliza o especialista Comercial da Agrex do Brasil, Mauricio Graziano

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